O ornitólogo Christopher Heckscher estuda o comportamento de uma espécie de sabiá há mais de duas décadas. Em seus estudos, ele descobriu que estes passarinhos de canto belo migram de Delaware/EUA para a Amazônia brasileira, e que este período de migração ocorre justamente para alimentação e engorda após período de reprodução.

 

Porém, o cientista também descobriu que o período de estadia do passarinho nas florestas de Delaware ora se mostravam longos, dando tempo para procriação e desenvolvimento adequado das crias, ora se mostravam bem mais curtos, não dando tempo adequado para que seus filhotes amadurecessem como esperado. Aumentando com isso a incidência de mortes prematuras em uma migração difícil e longa.

 

O que levava o pequeno pássaro a por em risco sua prole e migrar milhares de quilômetros antes do previsto? Seriam predadores? O desmatamento de áreas nativas? Alimentação escassa? Todas estas variáveis atuando em conjunto? A dúvida pairava e não havia qualquer direcionamento a uma resposta.

 

Com o uso de GPS acoplado aos animais, o cientista desconfiou que o sabiá possuía uma capacidade de compreensão sobre variáveis naturais que ele ainda não conseguia entender. Os dados mostraram que assim como tartarugas voltam a mesma praia para desovar, sabiás voltam as mesmas árvores para procriar.

 

Um novo universo surgiu, e anos de estudos puderam ser condensados e analisados com uma precisão nunca vista. A tecnologia estava dando um upgrade em sua capacidade de análise.

Porém, a questão continuava em aberto, por que havia ciclos migratórios mais curtos que outros?

 

Os estudos sobre as variáveis envolvidas descartaram a possibilidade de predadores, de desmatamento e da escassez de alimentação. Foi quando o cientista começou a relacionar dados baseado em uma precisa que a biologia conhece muito bem: a complexidade. E isso o levou a ter um insight sobre o motivo da migração antecipada: furacões.

 

Não se sabe como, mas os singelos sabiás previam com meses de antecedência quando a temporada de furacões chegaria, e iniciavam sua jornada migratória fugindo deste cataclisma.

 

Christopher colocou sua teoria à prova. Confrontou os estudos de migração dos sabiás com as previsões do órgão climático dos EUA, o NOAA, na tentativa de encontrar respostas. Como seus sabiás haviam ido embora muito cedo naquele ano, havia forte indicação de que furacões violentos assolariam a região, porém, os dados do NOAA diziam o contrário, a estação seria de calma. E agora José?

 

Será que um animal com o cérebro menor que uma azeitona conseguiria prever com meses o que máquinas avançadíssimas não conseguiam fazer nem em dias?

 

Bem, se tartarugas voltam a mesma praia onde nasceram, pombos usam o campo magnético da terra para localizarem locais exatos, e borboletas imperador migram milhares de quilômetros para o mesmo local mesmo tendo toda uma geração morrido entre uma migração e outra, por que sabiás não conseguiriam antever furações?

 

As palavras de Christopher tiveram impacto em mim quando a palavra “complexidade” foi pronunciada. E o motivo é simples: a natureza é um continuum relacional sem sim.

Portanto, para compreender a natureza é preciso enxergar relações e ser capaz de conceber impactos para além de simples efeitos.”

Trocando em miúdos, quanto maior for nossa habilidade de enxergar relações maior será nossa capacidade de antever efeitos indesejados. E é isso que o sabiá faz de uma forma ainda não compreendida por nós, e que os leva a migrar antes do previsto pelos dados.

 

Grosso modo, nossa atenção é direcionada ao que nos incomoda e perturba, pois, o que nos parece em correto funcionamento não demanda foco, é normal darmos mais atenção aos efeitos dos problemas do que as forças que os causam. Isso nos leva a ser reativos enquanto o sabiá é proativo.

 

Ao conceber a realidade através da complexidade enxergamos relações, e através desta compreensão podemos agir em antecedência aos efeitos, assim como o sabiá. É com este objetivo que o mindset da complexidade entra em campo e passa regrar uma nova forma de enxergar situações.

 

Surgido da biologia e cada vez mais incorporado à gestão, este mindset nos leva a compreensão das relações que caracterizam contextos, não importa qual. Isso nos habilita a antecipar efeitos e a compreender conexões entre variáveis diversas que melhora muito nossa capacidade de planejar e de lidar com problemas. E principalmente, nos induz ao aprendizado contínuo.

 

Foi este pensamento que levou Christopher a buscar relações para compreender o contexto de migração dos sabiás, e que o levou a enxergar interações difíceis de considerar. Ele sabia, por premissa base, que nada é unidirecional, que efeito nenhum é isolado, que nada tem uma causa raiz única. E foi explorando conexões que pode aprender porque o sabiá arriscava a própria prole.

 

Se você não conhece nada sobre o Pensamento Complexo recomendo que fique atento a esta forma de enxergar a vida que foi idealizada a partir de observações sobre a própria vida.

 

Garanto que sua visão de mundo e a forma de se posicionar com relação a ela vai mudar, e para melhor, muito melhor.

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