Tive contato com o DT ainda na faculdade, nas aulas de engenharia de produto, e me encantei com sua versatilidade e capacidade de apresentar soluções para problemas. Afinal de contas, era uma metodologia que possibilitava a compreensão do problema pela visão do cliente, que considerava a empatia como base e que permitia a qualquer um sua aplicação.

 

De forma rápida e criativa, inovadora e disruptiva e ainda por cima dando uma resposta as dores do cliente, era possível pensar na solução para tudo. “Não é preciso ser mestre em uma disciplina, pois, ao invés de ajudar, isso atrapalha o processo criativo”, eu replicava a meus alunos. “Não precisa ser focado e preso em nada e em nenhuma restrição, pois, uma mente livre, pensa livremente”, eu defendia ardorosamente.

 

Depois de alguns anos estudando e aplicando a premissa do DT, seja na forma de sprints ou de forma mais longa e refinada, eu havia virado um dos ferrenhos defensores de suas beneficies. Era cheio de exemplos e cases de sucesso na ponta da língua para exemplificar sua capacidade de oferecer uma solução inovadora para as mais diversas áreas. “Sabe o tubo de pasta que fica em pé? DT”.

Então comecei a enveredar a estudar sobre a mente humana e sua lógica de evolução e me deparei com conhecimentos que confrontavam as verdades vendidas pelo DT e que me fizeram reconsiderar muito do que sabia sobre ele a ponto de abandoná-lo para sempre.”

Comecemos pela empatia. O DT possui uma fase importante chamada “empathize”, ou empatizar, cujo objetivo é conhecer a dor do cliente, andar com seu chinelo, viver sob sua pele, conhecer seu mundo. Isso seria ótimo se na verdade não fosse bem assim. O processo do DT nos traz a premissa válida de que é preciso criar empatia para pensar em uma solução. Porém, isso é feito de forma rápida, numa visita, numa “imersão de algumas horas” no universo e na mente do consumidor. Há até uma espécie de “mapa da empatia” que pode ser utilizado para identificar “o que eles fazem”, “o que ou quem escutam”, “o que ou quem leem”, “quais são suas dores”, para ajudar no processo criativo dentro de quatro paredes.

 

A crítica aqui é quanto ao tempo e a forma. O processo de empatia não ocorre por levantamento estatístico, e muito menos por imaginação. Uma imersão precisa e demanda tempo e a vivência real da mesma dor para que haja conexão. Qualquer tentativa de pensar nas dores do consumidor apenas como exercício imagético, ou por uma visita ao supermercado NÃO o fará criar empatia. O processo que a desencadeia precisa de contato, precisa da construção de uma relação real, precisa de liberação de oxitocina no cérebro que só ocorre pela afinidade estreita com o sujeito foco. Portanto, qualquer ideia que surja de quem quer seja pensando no alívio da dor alheia, é um preconceito no sentido literal da palavra. É uma concepção pessoal, uma concepção externa, sobre o que e como o outro pensa e age.

Para desenvolver e criar empatia, é preciso viver aquele universo, conhecer o que está nas entrelinhas, entender os maneirismos, a cultura, a história, a linguagem. E isso não ocorre de outra forma a não ser em contato ao longo do tempo.”

Pense num comediante brasileiro querendo fazer piada sobre um país estrangeiro durante um show numa visita única aquela região, qual a probabilidade de que fale uma grande besteira? – e foi justamente o que vi acontecer. Eu vivi dois anos fora e não ouso dizer que entendo a cultura daquele país, mesmo visitando lugares históricos, indo a lugares típicos e fora do circuito turístico e conversando o máximo que podia com nativos.

 

O segundo ponto é a expertise, ou a falta dela. O DT prega que para fazer parte de seu processo você não precisa ser bom em uma coisa específica, que sua expertise não importa, basta dominar o processo do DT em si. Quanto mais mestre e domínio tiver sobre uma área, mais limitada é sua visão sobre essa área, mais cheia de paradigmas e restrições e menos criativo você se torna. Ledo engano meu caro Watson.

 

Em muitas das leitura que fiz tendo como referência a IDEO – uma das, se não a maior empresa focada em DT do mundo – era comum ler uma ode ao processo heterogêneo do brainstorming, onde “ideias selvagens” viriam à tona, ou ainda que “ignorância é uma benção” – pelo fato de não se estar preso a nenhum conceito.

 

Mas não funciona assim, infelizmente. Há diversos estudos que mostram justamente ao contrário. Estes estudos elucidam que é justamente a expertise em uma área que nos faz romper a barreira da normalidade e criar algo além do paradigma vigente. É somente quando nossa mente domina uma determinada área que a intuição criativa ocorre. É somente quando estamos saturado daquele mundo que conseguimos romper suas limitações e pensar diferente.

 

Nossa mente demanda tempo para absorção de conhecimento complexo, e mais tempo ainda para conceber uma ideia diferente. É apenas quando estamos imersos num mundo específico e cientes de suas restrições que conseguimos refletir para além das fronteiras.

 

Ao colocar muitos “experts de nada” num brainstorming para encontrar uma solução para algo, se está no máximo arranhando a superfície do problema, trabalhando com impressões. No máximo oferecendo uma evolução horizontal – entenda estagnada dentro do mesmo estágio paradigmático. Para que haja criação intuitiva é preciso que a mente seja mestra.

 

O próprio conceito de intuição não é alinhado ao DT, posto que intuição é algo que “vem de fora”, não vomitado aleatoriamente por uma imersão rasa e morna num universo qualquer. A intuição ocorre quando a mente já maestra, introspecta variáveis diversas e diferentes a sua expertise e consegue compreender do mundo uma solução, não dar ao mundo o que pensa ser uma solução.

 

Isso caiu como uma luva a minha própria experiência, pois, em todos os meus momentos “eureca” eu estava fazendo tudo, menos pensando no problema que tinha para resolver. Estava surfando, dormindo, vendo TV, no cinema, menos pensando no problema e você?

 

Isso ocorre porque a mente reflexiva precisa de tempo e demanda muitos processos subconscientes para a tratativa e para que consiga pensar numa forma não-conformista de ver o mundo. E precisa muito mais receber do mundo o que ele é do que dizer ao mundo o que ele deva ser. E para receber do mundo é preciso usar os cinco sentidos, não os que você limitadamente conhece como sendo os únicos, e sim: o corpo, a sensação, a percepção, a intenção e a consciência.

Qualquer solução de dentro para fora tendenciará muito mais a ser uma visão limitada, que ponha tubos de pasta em pé, que pense em algo que ninguém ainda pensou, mas que dificilmente faça a diferença na experiência de valor na vida de alguém.”

Então, antes de pensar que o DT é a solução para seus problemas e que oferece a metodologia perfeita para criação, pense na solução e no impacto do que você está pensando em propor e principalmente, se abra ao mundo com o seu melhor. A solução virá por revelação, não será forçadamente fantasiada pela intenção.

 

OBS: Quer estudar sobre as mesmas bases que me fizeram repensar minha impressão sobre o DT, fala comigo que te informo onde pesquisar e que autores buscar.

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