Passamos tanto tempo de nossas vidas focados em resolver problemas que esquecemos uma premissa básica simples e extremamente poderosa que tradições orientais milenares tratam com maestria: tudo está em seu lugar de direito.

 

Antes que você me chame de louco ou suponha que eu esteja dizendo que problemas não existam e que não devam ser tratados, peço que acompanhe meu raciocínio.

 

Quando estamos diante de uma situação de conflito, algo precisa ser feito para resolver ou pelo menos melhorar a questão. Isto é fato. Porém, isso também nos faz dar um foco extremado aos efeitos.

 

E é justamente neste ponto que nossa ótica condicionada a enxergar problemas, como se estes se resumissem aos efeitos, muito mais nos prejudica que auxilia.

 

Vou ser mais claro.

 

Trabalhei por anos na área de qualidade e outros tantos na de projetos, em ambas, senti uma progressão de contextos que me cercavam com cada vez mais pressão para fazer as coisas seguirem conforme o que foi planejado.

 

E isso não é de todo mal. Quando essa energia é direcionada ao planejamento torna-se um aspecto positivo e crucial que jamais deve ser negligenciado. E digo mais, é um período que deve receber muita atenção, pois é nele em que nos preparamos para o por vir.

 

Dito isto, porém, é preciso ponderar três coisas que são comumente esquecidas, seja no planejar ou no executar:

 

  1. Tudo cabe no papel – Mas, o que isso significa? Significa que no planejar tudo se encaixa com mais facilidade, pois é um exercício onde as forças que fazem a vida fluir estão inertes. O que nos leva ao segundo ponto;

  2. A vida é contextual – É preciso reconhecer que a vida é uma crescente de forças relacionais. Nada em absoluto existe contido em si, portanto, esqueça a ideia ultrapassada de causa e efeito de forma unidirecional. Isso significa que o efeito de algo é causa de outro, e assim sucessivamente, ad eternum;

  3. Controlar é um ato estúpido – A vida não aceita controle. Até mesmo uma máquina com sistemas de predição ultrassensíveis vai quebrar, o programa mais bem escrito vai travar e o metal mais resistente vai se deteriorar. Imagina quando o fator humano entra em pauta.

Nossa busca por equacionar e controlar variáveis que não se submetem a controle por sua natureza é o que nos faz julgar que coisas externas, sejam elas o que forem, são as causas de nossos problemas.”

Vou te dizer uma coisa que pode parecer loucura, mas, é nossa tentativa de controlar as coisas que criam os maiores problemas com os quais temos de lidar.

 

Mudar esta perspectiva exige muito e pode parecer sem sentido algum para outros. Sabe por quê? Porque, somos extremamente focados em efeitos. E efeitos nada mais são que o resultado da vida seguindo seu rumo, fugindo de nossa tentativa de controle, ou melhor dizendo, nos mostrando que não aceita controle.

 

Faça um exercício comigo. Imagine que ao invés de tentar controlar as coisas que te cercam, seja lá o que for que te cerque, você pudesse simplesmente compreender o fluxo do que ocorre e se ajustar a ele.

 

Releia o que escrevi: se ajustar a ele, não ajustá-lo à você. Agora, ao invés de tentar impor sobre este fluxo sua vontade, você simplesmente vai seguir com ele e através dele.

 

Para ficar mais claro: imagine um rio correndo em direção ao mar. Nossa ânsia de alcançar objetivos e controlar as coisas nos faz iniciar uma obra com o objetivo de controlar seu percurso. Então, imaginamos um caminho ideal para esse fluxo e começamos a mudar a trajetória do rio. Cavando ora em solo macio, ora em solo duro, desmatando a vegetação costeira, derrubando montanha e encosta, tirando o que houver em nosso caminho para alcançar o objetivo.

 

Consegue pensar na enormidade de problemas que teríamos? Agora mude de perspectiva e repense a questão. Consegue pensar na enormidade de problemas que nós mesmos causaríamos por obrigar o rio a seguir o fluxo que queremos?

É justamente isso que passamos a vida fazendo: lidando com os problemas que nós mesmos criamos sem nos dar conta disso, e enxergando nas pedras do caminho percalços. ao invés de compreender que elas são o caminho em si.”

Por que ao invés de tanto esforço para controlar coisas não nos dedicamos a compreender o relevo e identificar para onde a correnteza nos leva? Por que não saímos do rio e caminhamos pela margem quando ele se tornar caudaloso e voltamos as suas águas quando as correntezas se acalmarem? Por que dedicamos tempo e energia a impor vontades quando seria bem mais produtivo compreender o melhor porto para atracá-las?

 

A resposta é simples e direta: nosso foco é ególatra.

 

E quais são as implicações disso?

 

  1. Somos levados a crer que a exaltação de nossa individualidade é a melhor saída – com isso, iniciamos uma jornada de controle sem fim e infrutífera sobre coisas que não aceitam controle;

  2. Esquecemos que vivemos em comunidade com outros seres (sejam eles humanos ou não) – com isso, ignoramos o alheio e seu direito à vida tanto quanto nós a temos;

  3. Culpamos fatores externos pelos efeitos que nos afligem, quando na verdade nós mesmos o plantamos – com isso, nos protegemos e nos iludimos achando que os outros erram, não nós.

 

Então, quando digo que pare de resolver problemas, na verdade estou querendo dizer: PARE DE FOCAR EM EFEITOS.

 

E não é nada fácil fazer isso, principalmente quando tudo a nosso redor só enxerga efeitos, age e nos direciona a lidar com efeitos.

 

Assim, quando ouvir falar sobre capitalismo consciente, gestão e liderança humanizada, sustentabilidade, equidade, soft skills e tudo o mais relacionado à uma sensibilização quanto aos paradigmas atuais, lembre-se que antes de tudo é preciso parar de focar em efeitos, parar de resolver problemas, e desenvolver a autocrítica que nos permita aprender a não criá-los.

 

Só assim, deixaremos de ser vítimas e nos enxergaremos como algozes. Isso dói, mas abre os olhos e evolui nossa visão de mundo.

 

Sabe como isso afeta sua evolução profissional? Não!?

 

Te faz achar que resolver problemas é uma virtude, te ilude com a premissa de que você não é a causa das dificuldades que enfrenta, e te reforça a ideia de que para evoluir precisa impor sobre a vida sua vontade.

 

Como diria Cherlok Holmes, ledo engano meu caro Watson.

Nenhum profissional que esqueça a arte de compreender a vida pode esperar encontrar respostas para os problemas que o afligem”.

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