Planejar é determinar ações em um plano sequência em prol de um objetivo específico. Isso envolve o estudo de cenário e a identificação de como essas ações são programadas, considerando meios e recursos para tal.

 

Quem não se planeja se perde pelo caminho e fica sem direção a seguir, e quanto mais detalhado o planejamento for, melhor. Certo?

E se te disser que a coisa não é bem assim meu caro Watson! O que você me diz?

 

Para conhecer qual é o calcanhar de Aquiles do planejamento é preciso compreender alguns pontos bem interessantes: o que, o como e o quando. O primeiro deles, “o que”, diz respeito ao ato de determinar o Norte, o foco, o objetivo central. O segundo, “o como”, diz respeito a organização das ações, e o terceiro, “o quando” é relativo a estratégia para lidar com as mudanças ao longo do caminho.

 

1º – O QUE?

 

A massiva parte da literatura indica que o planejamento pressupõe uma determinação do que deva ser alcançado, e até aí tudo bem. Um norte bem definido nos auxilia e orienta, e funciona como uma bússola ao nos indicar a direção a seguir.

O grande problema em determinar o Norte é que ele envolve um grande exercício de abstração que exige muito dos envolvidos.”

E nesse ponto a complexidade casa como uma luva, pois ela nos ajuda a considerar as incertezas, as mudanças e os fatores subjetivos como parte do processo, não como algo a ser eliminado – coisa que a grande maioria tenta.

 

Ao incluir na equação as incertezas, as mudanças e os fatores subjetivos inerentes a um exercício de abstração como é o de planejar, a complexidade nos permite caminhar em terreno escorregadio sem tanto medo de derrapar, coisa que George Soros, um incrível investidor sabe e domina muito bem.

 

Suas decisões antes de um investimento na bolsa não se baseiam somente em números, envolvem muito de seu feeling, a cultura, a história e a significação de valores atrelados ao cenário que ele busca explorar, facilitando determinar o que deve ser alcançado. Com isto em mente, podemos avaliar o segundo ponto do planejar.

 

2º – O COMO?

 

É justamente neste momento que a grande maioria se perde, pois não entende a complexidade da coisa. Se você já nos acompanha, deve saber que quando falamos em complexidade (veja aqui), estamos falando na verdade de relações, interações, incertezas e subjetividade.

 

Então, o “como” se planeja está mais relacionado a como as relações, as interações e os fatores subjetivos identificados serão explorados, e o que deve ser feito para que novas relações e interações sejam construídas em prol do objetivo central do planejamento.

 

O foco é muito mais no aprender com a realidade do que propriamente a determinação do que deve ser feito.”

 

Eu já imagino que você esteja desconfiado. Afinal de contas, como assim a forma como se faz é mais importante do que determinar o que deve ser feito? A resposta é simples e direta: planejamento não funciona a base de determinações, mas de estratégia. Mas, dá para explicar isso melhor? É claro que dá!

 

A noção de estratégia se opõe a noção de programa. Programar é determinar uma sequência de ações que deve funcionar em circunstâncias que permitem sua efetivação. Programar nos poupa tempo e reduz custos, pois automatiza atividades e possibilita o controle sobre o resultado. Porém, diante das incertezas e mudanças constantes que surgem ao longo do tempo, a programação perde seu sentido. Para tal, é preciso estratégia.

A estratégia exige flexibilidade e a consideração daquilo que o planejamento comum tenta expurgar: as situações aleatórias, as incertezas, os problemas e a subjetividade; coisa que automatismo algum é robusto o suficiente para lidar.”

Assim, as informações coletadas pelo caminho em busca do alcance do objetivo central do planejamento devem servir não como um reforço de uma programação, mas como um ciclo de aprendizagem que reforce e ajuste a própria estratégia. Neste ponto, a aprendizagem contínua é a chave mestra.

 

Vou dar um exemplo prático. Há algum tempo fiz uma longa viagem de carro explorando o litoral e conhecendo novos lugares. Meu Norte estava definido: conhecer praias isoladas entre minha cidade, Natal/RN, e a cidade de Recife no estado de Pernambuco.

 

Na ida eu decidi seguir uma programação detalhada, pesquisei locais de parada, procurei por recomendações, por locais de abastecimento e de estadia, melhores rotas e custos. Isso me ajudou a definir exatamente o que fazer, quando e como fazer. Então, parei onde havia determinado, conheci o que havia programado e cheguei a meu destino em cinco dias conforme esperado. Mas durante todo o trajeto, gastei muito de minha energia em seguir o que foi planejado. Isso me irritou profundamente, tanto que na volta decidi deixar o mapa de lado e seguir meu feeling.

 

Fazer isso não só me obrigou a não impor sobre o percurso concepções que eu já havia absorvido – o que é normal em um planejamento –, como me fez ficar muito mais atento ao que eu não havia notado anteriormente. Tudo porque ao invés de determinar o que seria feito, eu me abri a percepção do que o momento presente me trazia de opção, mesmo sem fazer ideia de quais seriam estas opções.

 

Com isso eu entrei por estradas desconhecidas, visitei lugares escondidos fora da rota turística, e tive uma experiência muito mais rica por sair da zona de conforto. Aprendi e vivenciei situações muito mais interessantes, como navegar em uma jangada pelo estuário de um rio a noite durante a lua cheia e sentir a energia de estar no meio da natureza, cercado pelo mais absoluto silêncio.

 

Eu sei que uma viagem de carro nem de longe se assemelha ao planejamento da gestão de uma organização ou de um projeto. Porém, a complexidade nos ensina a questionar:

 

Quais são as opções, as oportunidades, as dificuldades que eu tenho no agora, e como meu background me ajuda a explorá-las em prol do meu objetivo?

 

Qualquer relação quanto ao conceito de mindfulness ou de sensemaking não é mero acaso.

 

Essa mudança de visão imprime uma dinâmica completamente diferente ao planejamento, levando-o a ser muito mais fluido e dinâmico, que um jogo de cartas marcadas que nos faz muitas vezes perder as oportunidades que uma programação fechada e coesa nos faz ignorar.

 

Isso sem falar que a determinação restrita de um planejamento fechado nos leva a direcionar muito recurso ao controle e ao ajuste constante, já que o caminho se torna um eterno ciclo de forçar sobre a realidade uma concepção prévia. Isso estressa, consome tempo e muitas vezes frustra os envolvidos.

 

Como gerente de projetos eu lidei com essa realidade ao longo de sete anos. E era comum eu me sentir estagnado por ver o meu esforço e de minha equipe serem consumidos em grande parte por ajustes e controles. Quando internalizei as premissas da complexidade pude agir com muito mais pró-atividade, e sinceramente, descartei grande parte das ferramentas que a gestão usual de projetos me indicava a usar.

 

A complexidade ensina que planejar está muito mais associado a aprendizagem, faz considerar a importância de contextualizar cenários, e faz pensar muito mais em consonância ao mindset ágil que qualquer lógica focada em controlar e manipular o que não pode ser manipulado ou controlado: a dinâmica da vida.

 

Mas você pode se questionar: isso não fará com que fiquemos perdidos no meio do caminho? A resposta vem rasteira: não, não faz. Ao não predeterminar “o como”, nos tornamos muito mais conscientes e focados no objetivo central, que funciona como o guia mestre. Isso nos permite agir com muito mais agilidade uma vez que a energia dedicada ao controle e ao ajuste é redirecionada ao momento presente. O que nos leva ao terceiro ponto.

 

3º – O QUANDO?

 

Imagine um avião que faz uma longa viagem. O piloto sabe qual o destino e durante a decolagem deve estar atento as variáveis que permitam o voo. Porém, uma vez alcançada a altura de cruzeiro ele simplesmente liga o piloto automático e fica atento ao que ocorre. O piloto sabe que não precisa ficar a todo momento controlando a aeronave, somente quando algo imprevisto ocorre, o que lhe exige uma estratégia como resposta.

 

O pensar complexo não é contra a programação, pelo contrário. Ela o abraça e permite um maior conhecimento e uma maior sensibilidade quanto a seu uso – quando as relações, as interações e as incertezas permitem uma determinação de ações sem reflexão.

 Portanto, ao pensar em termos de complexidade fica mais claro para nós quando programar, e quando é preciso uma estratégia de reação.”
 No final das contas, as ações passam a ser fruto não da imposição sobre a realidade de uma programação restrita, mas fruto de uma estratégia fluida e dinâmica que se utiliza das informações que coleta nas mais diversas fontes para minimizar incertezas e problemas. Com isso nos tornando muito mais sábios a evitá-los, assim como melhor utilizá-los a nosso favor.
 

Como diria Edgar Morin, “a ação é o reino concreto da complexidade”, pois é consequência da reflexão e do questionamento constante sobre as forças e as relações que caracterizam um contexto, e das incertezas e da subjetividade que acompanha o nosso pensar.

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