Uma das maiores dificuldades do planejamento e desenvolvimento de produtos, ou simplesmente PDP, é fazer com que as diversas frentes de trabalho alinhem suas visões quando um novo produto é pensado.

 

Usualmente, o setor de marketing é o responsável pelo levantamento das informações de mercado e das características de design do produto, definindo questões como público-alvo e de qualidade. Só então a Engenharia entra em campo, traduzindo estas informações em aspectos técnicos, desenvolvendo projetos e escolhendo materiais para que a Produção faça a mágica acontecer e fabrique o produto pensado. Essa é tríade mais elementar do PDP: MKT, Engenharia e Produção.

 

Tive a oportunidade de trabalhar com um experiente gerente, que havia trabalhado em projetos na Ford e na Alpargatas, e dele ouvi que o PDP se assemelhava ao corpo humano. O MKT era os sentidos de percepção, a Engenharia o cérebro e a Produção seus sistemas operantes, dizia ele.

 

Mas, após ter trabalhado alguns bons anos na validação e adequação normativa de produtos e outros tantos na gerência de projetos fui obrigado a repensar um pouco essa afirmação. Infelizmente, o PDP tal qual eu havia aprendido na faculdade e presenciado na prática mais parecia um mamulengo velho que algo complexo e em sincronia tal qual o corpo humano. E sabe por que tive essa triste impressão? Porque o que mais vi acontecer na vida foram ações desconexas entre partes que deveriam funcionar em conjunto.

 

O MKT, assumia a postura de ser a parte perceptiva e criativa da coisa e não aceitava ser “limitado” pela engenharia, que só enxergava tecnicalidades e limitavam a criação e o design das ideias. Já a engenharia se referia ao MKT como “aquele povo que vive com a cabeça nas nuvens”. E a produção? Bem, a produção era o patinho feio da coisa. Para a produção, “MKT inventava coisas que a engenharia complicava” e era vista pelos demais como aquela parte que era obrigada a fazer o lhe foi determinado e que sempre causava problema por não fazer direito.

 

Em resumo, um idealizava, um articulava e o outro executava. E acredite, essa briga de visões ainda é uma constante, e se existe em grandes corporações, imagina a confusão em startups, pequenas e médias empresas cuja dinâmica desta tríade mal ocorre. Ou quando ocorre, se dá por vieses nublados.

 

Sabe o que me fez repensar a analogia ao corpo humano? A complexidade. Para explicar vou continuar nesta analogia.

 

Rufem os tambores meus caros:

Se a tríade MKT, Engenharia e Produção encerram o corpo, a Complexidade é a Luz Divina que desce do céu e provê espírito ao corpo.”

Isso porque a Complexidade, nas palavras de Steve Taylor da Beckett University no Reino Unido, é a forma pela qual a natureza evolui e se expressa. Ou ainda, de acordo com Fritjof Capra da Schumacher College, é a lei que regra a dinâmica de comunicação da vida. Ou, conforme Edgar Morin, filósofo e sociólogo francês, é o que possibilita a reflexão e a autocrítica do pensar e do aprender.

 

Trocando em miúdos. A complexidade, quando aplicada ao PDP:

 
  • Coloca a tríade desunida para trabalhar em conjunto ao alinhar suas visões, sensibilizando para que um enxergue a limitação do outro e a própria também;
  • Refina o canal de comunicação entre elas, pois considera a aprendizagem como base;
  • Permite que a troca de informações alicerce a evolução do processo de desenvolvimento como um todo, pois não vê distinção de hierarquia entre elas.
 

É a complexidade que permite que sentidos, cérebro e sistemas trabalhem em harmonia. Simples assim, mas nem tanto.

 

E isso não é mero papo. Como a complexidade traduz a dinâmica que conecta e alinha o pensar ao agir, e permite ao agir perceber seu impacto no pensar, tem a capacidade de fazer com que o PDP seja de fato um processo de desenvolvimento, um processo de evolução, e não uma briga de centros nervosos por controle de partes autômatas. O foco é na integração.

 

Assim, ao invés de fases de desenvolvimento que pouco ou nada conversam entre si, com a complexidade o foco passa a ser a definição do como, do quando e do onde cada uma das diversas ferramentas e técnicas do PDP podem ser utilizadas em conjunto e em prol do mesmo objetivo. Sem mais essa de jogar por cima do muro, de passar a batata quente ou o mico para o ombro alheio.

Com o pensar complexo, o perceber, foco do MKT, o estruturar, foco da Engenharia e o agir, foco da Produção, podem finalmente funcionar em uníssono e conceber um novo produto de forma muito mais assertiva, rápida, ágil e fluida.”

Isso evita que atropelos e problemas causados por visões diferentes dificultem a execução de um projeto complicado, difícil e estressante. E digo mais, fazendo que deixem de culpar um ao outro nessa jornada, pois os obriga a enxergar em si próprios a causa dos problemas que enfrentam.

 

O pensar complexo permite ao PDP eliminar as barreiras entre seus estágios e evoluir para se tornar um processo único e coeso, fazendo com que o mamulengo velho funcione como um corpo coeso, onde o perceber, o pensar e o agir sejam reflexo de um mesmo espírito e de um mesmo propósito.

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