Estava zapeando no LinkedIn e me deparei com um post em que havia replicada uma daquelas frases de efeitos que a maioria das pessoas adora curtir e concordar sem muito critério ou reflexão. A frase dizia, “’Onde eu não posso ser eu mesmo(a), prefiro não estar’. Faça dessa frase um mantra e viva sua melhor vida”.

 

Ora bolas! E desde quando somos nós mesmos?

 

Eu entendo a necessidade do respeito à individualidade do ser. Afinal de contas sufocar nossa essência em prol de aparências é um martírio e um calvário. Tenho profunda compaixão daqueles que fazem deste modal de vida um caminho. Dedicar tempo, esforço e vida para satisfazer uma imagem que não corresponde à realidade, mas alimenta uma persona falseada, exige de mais, consome demais, cobra demais.

 

Exige e cobra tanto que a história nos mostra exemplos quase infinitos do alto preço cobrado. Depressão, isolamento, solidão, péssima qualidade de relacionamentos, suicídio e uma carga imensa sobre os ombros como uma constante. Pergunte a figuras clássicas como Lady Di, Elton John, Fred Mercury, John Lenon e tantos outros que em maior ou menor grau vivem uma vida para “inglês ver”.

 

Mas, saiamos dos exemplos extremos e nos voltemos aos reles mortais como eu e você. Neste contexto mais simplório, nem tudo é sofrimento meu caro Watson e não precisa ser.

 

Os construtos sociais são formados e forjados por cercas invisíveis que dependem de fatores culturais que a grande maioria simplesmente desconhece. E que fatores são esses?

 

Nos sistemas sociais, é preciso perceber que a cultura se caracteriza e se sustenta através das interações humanas (padrão ou forma), que por meio da comunicação (processos) expressada em textos, artefatos, escrita, música e imagens, se materializa (estrutura ou matéria), permite a aprendizagem (significação).

 

Os elementos da cultura

Os 4 elementos do contexto social

 

Tá, mas o que isso significa na prática?

 

Significa que dependendo do contexto nos comportamos de forma diferente. Significa que usamos máscaras que ocultam, disfarçam, alteram nossa individualidade a todo momento. E isso não é de todo mal, basta pensar que um(a) colega que adora falar palavrão e tirar sarro com todo mundo não seria bem-visto na missa ou culto de domingo, ou no velório de alguém. Ou ainda, basta notar que nos portamos em casa diferente do que nos comportamos no trabalho ou com amigos em uma balada. E ninguém está nem aí com essas diferentes posturas, mal se liga que as faz.

 

Saiba que é o contexto e a cultura que dita a regra do jogo e que te faz usar a máscara adequada a ocasião. Mas pouca gente para ou dedica algum tempo para entender essa nuance tão subjetiva e ao mesmo tempo tão comum.

 

Isso as faz crer que uma individualidade exacerbada e de comportamento retilíneo seja algo louvável de se ostentar. As faz dar likes em frases que enaltecem na verdade uma postura ególatra, como se isso fosse admirável. Sinto informar, mas não é. Na verdade, seu like além de ser em vão, retroalimenta uma falácia que mais espalha abobrinha e atrapalha na evolução de seu espírito que te ajuda a se tornar um ser humano melhor.

 

É nesse ponto que entra a necessidade do autoconhecimento. Seu exercício é a chave que tanto nos faz reconhecer os limites que moldam a cultura na qual estamos inseridos, quanto nos leva a perceber até onde é preciso negar nossa individualidade em prol da aceitação alheia.

 

Temos um exemplo claro diante de nossos olhos. Um presidente desbocado, mal-educado e acéfalo que ignora completamente sua posição e a cultura do contexto onde frequenta e atua. E não adianta dizer que isso é ser autêntico, pois, quando essa “autenticidade” rompe o limiar da educação e vira ofensa ao meio tem um nome bem mais simples, grosseria e desrespeito.

 

Quanto mais cientes dos contextos culturais onde nos metemos e quanto mais dedicamos tempo ao exercício do autoconhecimento, mais sabemos, com educação e assertividade, respeitar nossa individualidade sem nos deixar sufocar pelas pressões externas, sem negar nossa essência e sem anular nosso espírito.

 

A matemática é diretamente proporcional. Quanto mais reconhecemos quem realmente somos, mais expressamos a verdadeira autenticidade de nosso ser. Uma autenticidade que imprime altivez, atrai admiração e respeito não importa o local ou o contexto.

 

Alardear autenticidade passa longe, bem longe, de impor sobre o contexto uma postura que afronte as regras ocultas que caracterizam a cultura, envolve muito mais a autoconsciência e a assertividade de saber quando, como e de que forma impor os limites necessários para que nossa essência seja reconhecida e respeitada.

Construtos sociais duradouros e estáveis são forjados através da empatia, da sensibilidade e do respeito ao alheio e a quem somos. É via de mão dupla, não uma trilha estreita aberta a machadada no meio do mato. E se solidifica através do exercício diário da gestão do conflito entre o que somos e o que nos cobram ser. Nunca se estabelece pelo confronto. Nunca se mantém pela imposição ignorante do ego.

Aí sim, no final das contas, as máscaras assumem não aquela postura falseada que tanta gente teme, mas uma simples forma de respeito a cultura estabelecida que nos permite construir pontes ao invés de muros.

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