Todo início de ciclo ou projeto envolve o cascateamento de objetivos macros em metas que são disseminadas a toda cadeia produtiva. Quanto mais alto na hierarquia, mais subjetivo e genérico é esse processo, quanto mais baixo, mais objetivo.

 

Este processo segue uma fórmula básica que tenta tornar claro o que a organização, entenda o alto da gestão, define como sendo a direção a seguir e o que se deve alcançar.

 

 
Não importa o tipo de organização, a coisa toda grosso modo sempre ocorre top-down. O aumento de market share, receita e retorno sobre investimento se transformam em quantidade de produtos vendidos, produção por hora, vendas por área e assim por diante.
 

O acúmulo dos benefícios e dos ganhos segue no entanto segue o sentido contrário do cascateamento. Se de cima para baixo ocorre o desdobramento que deve suportar o objetivo, de baixo para cima se acumulam os ganhos que se findam centralizados no topo da cadeia.

 
 
Mudam-se as cores e o contorno, mas o topo continua exigindo o mesmo de todos os envolvidos: mais esforço e mais eficiência para mais crescimento e lucro. Esse jargão é um padrão quase inquestionável.
 

Desculpas não faltam e são anunciadas em alarde para justificá-lo. A culpa de mais pressão sobre o sistema com metas apertadas e sufocantes é o concorrente, é a dinâmica selvagem do mercado, é a incerteza da economia, nunca a ganância proveniente de uma visão ególatra.

 

Basta um olhar atento para perceber que o crescimento e o acúmulo dos ganhos centralizados são o que regram e suportam a definição de grande parte das metas. Com isso, a quantidade de trabalho exigida é tão grande que pouco sobra tempo para questionar o porquê de as coisas serem como são, ou, ao que servem de fato.

O trabalho passa a ser algo a ser executado, não questionado e metas, números a serem alcançados, não compreendidos.”

É neste ponto em que o propósito entra em campo e muda a dinâmica. É ele quem faz com que a cadeia como um todo questione o porquê de as coisas serem como são e é ele que leva a reflexão sobre o que e como devem ser feitas as coisas na prática.

 

Talvez seja por isso que o topo, cego em sua visão restrita sobre si e sobre a cadeia como um todo, pressione tanto a parte mais baixa da hierarquia com metas apertadas. O tempo, ou a falta dele, oprime a reflexão e transforma vidas com sentido em força de trabalho acéfalas. Quando isso acontece, missão e visão se tornam uma falácia que servem apenas para estampar paredes e crachás, para uma visita de auditoria, ou ainda para o mercado achar que aquele sistema têm um propósito comum. Tornam-se, como o belo ditado popular diz, “coisa para inglês ver”.

 

Quando o propósito entra em campo e embasa a reflexão sobre os objetivos macros de uma organização, transforma-se em metas que ignoram o acúmulo pelo acúmulo e o crescimento pelo crescimento e torna-se resultado de uma visão comum que dá sentido ao que, e ao como operações, processos e fluxos são conduzidos.

 
 
Esta visão dispensa metas irreais ou gananciosas, e passam a ser perseguidas por crença e paixão de que o trabalho é reflexo do benefício que gere aos envolvidos em toda a cadeia.
 

E para que o benefício seja distribuído a todo os envolvidos, e apenas não centralizados no topo da pirâmide, é preciso que haja a consciência oriunda da reflexão, do questionamento, e da complexidade que permitam que as relações sejam geridas e conduzidas a partir de uma visão empática e de base moral.

 

É esta visão que permite que haja um propósito verdadeiro entranhado na organização como um todo, não apenas como imposição de uma visão restrita de quem lidera pelo controle e pelo domínio.

 
 
Somente quando o propósito é construído a partir da visão compartilhada dos atores que caracterizam a complexidade da cadeia entrará de fato e de direito como variável na definição de objetivos e metas, e funcionará como um catalizador na transformação do ambiente de trabalho em um ambiente promotor à evolução humana.”

O cascateamento ocorre normalmente, afinal, cada setor, cada envolvido, cada parte, pode e deve ter sua meta de trabalho. Mas, quando construídas a partir do questionamento, possibilitam que os ganhos sejam descentralizados.

 

Enquanto a descentralização do ganho não ocorre, o propósito funciona apenas um penduricalho estampado na parede para dar ares de paraíso a masmorra diária que faz do ambiente de trabalho um carrasco da qual se quer liberdade ao final da jornada e na qual o marketing tratará como uma peça no teatro cotidiano.

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