Luiz Felipe Pondé, reconhecido filósofo de nosso país, escreveu em sua coluna da Folha de São Paulo que:

O capitalismo gira em torno do capital, que tende a se reproduzir como entidade autônoma, assumindo valor absoluto, onde tudo se submete a sua dinâmica”.

Sua análise é certeira neste ponto e toca o ponto nevrálgico que põe no capital o foco desse sistema. E complementa: “O Capitalismo Consciente é um gozo para idiotas de esquerda”.

 

Ao afirmar que há duas categorias que servem para exemplificar os que ousam repensar essa premissa fundamental, Pondé os classifica como idiotas ou cínicos. Em suas palavras, “enquanto o idiota pensa estar ‘melhorando o capitalismo’, o cínico usa de má fé pura e simples”.

 

Para justificar suas palavras há uma alusão a ideia de levar o pet para a empresa como se isso torna-se a empresa em uma organização humanizada, que se complementa na imagem do revolucionário vegano que vai trabalhar de bicicleta e acredita na publicidade de bancos, dos que usam ansiolítico para aguentar o tranco de uma vida de trabalho fodida, e a ideia tola de que jovens entrarão na política e mudarão o cenário das coisas.

 

Bingo, para todas estas caricaturas. Estes exemplos refletem com maestria os efeitos do capitalismo selvagem e mecanicista que caracteriza a massiva parte das organizações e líderes do mundo e que ainda regra nossas relações de mercado, e são ensinadas nas faculdades. A geração do Pondé e a minha incluso, é fruto dessa visão de mundo, tanto pro bem quanto para o mal.

 

Porém, entretanto, contudo, todavia, o que filósofo celebridade, conhecido pelos seus colegas e pares, Cortela e Karnal, por ser ranzinza, e como pessimista, em suas próprias palavras no programa Mundo Pós Pandemia da CNN, parece ter esquecido de fazer quando escreveu sua coluna foi o passo mais básico de qualquer crítica: pesquisa.

 

Pondé não demonstra conhecer nada sobre as premissas do Capitalismo Consciente, mas é certeiro na visão que faz sobre o lado negro do capitalismo atual. Talvez isto seja reflexo da visão de mundo reducionista que ainda limita o entendimento da realidade dos que detém o poder, e dos que são submissos a ele, a grande maioria na verdade.

 

Para entender melhor essa lógica é preciso compreender o estágio de consciência dos que caracterizam e fomentam o capitalismo como ele é visto hoje, coisa que Paul Zak em sua obra Moral Markets e Ken Wilber, autor de Theory of Everything fazem muito bem. É preciso compreender as fundações conceituais que construíram o paradigma vigente, coisa que Fritjof Capra faz maestralmente em sua obra – The System View of Live. Nesse sentido, todos que lutam por uma revisão ou evolução deste paradigma selvagem se encaixam na categoria dos idiotas mencionada por Pondé.

 

Como diria Hugo Bethlem, chairman do Instituto Capitalismo Consciente Brasil: “o Capitalismo consciente não é “paz e amor, bicho, tu faz o que quiser, entrega resultado se der”. É sim, uma forma mais evoluída de se pensar em riqueza. E se essa distribuição mais igualitária for uma tendência esquerdista, então que seja, pouco importa.

 

Pondé se atém ao lado danoso da coisa toda talvez por ser ele um cego quanto a organizações capitalistas e lucrativas elencadas na obra de Frederic LalouxReinventing Organizations, que nos mostram que há uma forma menos onerosa de se pensar no capital, lidar com os recursos do planeta e considerar as pessoas e todas as formas de vida nessa equação. Talvez ele precise ler a publicação do Raj Sisoda e conhecer um pouco sobre a pesquisa Humanizadas encabeçada pela USP, ou ainda, conhecer sobre a certificação da B Corp antes de escrever sobre o que pense ser a ideia de mais consciência no capitalismo.

 

O filósofo associa a consciência do processo capitalista ao cínico em sua versão mal caráter. Eu prefiro a de Antístenes, discípulo de Sócrates, cujo propósito da vida era viver na virtude, de acordo com a natureza, na vida simples e sem apego a valores sociais como poder, riqueza ou ao apego a bens materiais. Mundo utópico de certo, mas ainda sim, uma melhor referência.

 

A grande questão que leva à busca por um capitalismo mais consciente supera definições de idiotismo ou cinismo e vão muito além, pois, em sua base está a premissa de que organizações podem, e devem, ser utilizadas como um catalizador para a evolução humana, e como meio para a geração de riqueza para todos os envolvidos (humanos ou não), já que considera uma gama de beneficiários muito mais abrangente que a selvageria limítrofe a qual Pondé se reduziu e da qual é fruto.

 

Neste ponto, Pondé está certo. Pensar em uma nova forma de capitalismo talvez seja coisa de idiota, pois o conceito do capitalismo é no capital, não nas pessoas, não nas relações. Mas, antes a busca e a luta pela evolução de um conceito que se demonstra cada vez mais caducado, que a inércia passiva que se prende a definição conceitual como se ela resumisse e condensasse a realidade última das coisas.

 

No final de contas, tanto faz o nome ou a categoria desse novo formato de pensar as relações de mercado ou sistema econômico, mas sim, se os esforços de evolução do único sistema provado válido que temos nos direciona a melhores condições de vida e a manutenção de toda a diversidade que enriquece e enobrece nossa existência, posto que o foco é na construção de riqueza através de relações éticas e morais a todos na cadeia, não mais no acúmulo centralizador do capital.

 

Já que discordo do conceito do cínico considerada por Pondé, meu salve final é direcionado aos idiotas!

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