Grande parte dos gestores e líderes ainda não despertou ou se quer ouviu falar sobre consciência nos negócios. Mesmo com grandes players indicando que a gestão precisa se guiar por princípios mais humanizados e ser pautada por um nível de responsabilidade socioambiental desconsiderada até então, a maioria dos que tiveram algum contato com o tema ainda acha que isso é papo furado, ou que o tema está restrito ao meio acadêmico, portanto, não tem a real noção sobre os impactos dessa ideologia na prática operacional.

 

Muitos são os fatores que influenciam essa cegueira. Um dos principais é ao fato das organizações precisarem lidar constantemente com aspectos financeiros que lhes roubam muito tempo e que exigem cuidados e dedicação constantes para que suas finanças tanto permitam sua existência quanto seu crescimento.

 

Nessa rotina cheia de incertezas, típica dos estágios iniciais de qualquer negócio, todo gestor precisa lutar para manter as finanças em dia. Pagar contas, honrar dívidas e garantir retorno termina consumindo grande parte de sua rotina. Muitos destes negócios ficam presos neste estágio inicial, onde o foco é na sobrevivência e no crescimento. Com isso, questões que exigem uma reflexão mais ampla quanto a aspectos que supostamente não influenciam suas operações nem considerados são.

 

Sob estas condições, há uma forte consciência da necessidade do lucro, pois, é ele quem suportará sua engrenagem e possibilitará sua existência. Assim, é a consciência do lucro que pauta toda a rotina organizacional, fazendo com que a redução de custos, o enxugamento da estrutura, a qualidade e a eficiência, a escalabilidade e a inovação sejam os fatores de maior peso. Em detrimento da cultura, do propósito, do impacto ambiental e da orientação à stakeholders, que ficam em segundo, terceiro, quarto plano. 

 

Essa consciência orientada ao lucro é necessária e se faz necessária durante toda a jornada da organização. O motivo é simples: ela precisa validar e maturar suas operações diante de tantos concorrentes e conquistar seu lugar ao sol diante de tantas ofertas similares. Os problemas começam quando ela fica preza a essa orientação, como se única alternativa fosse.

 

Nossa sociedade se tornou expert nessa alternativa e fez dela o caminho único. Toda sua estrutura, mecânica e ideologia evoluiu para fomentar essa visão. Isso nos levou a esquecer que a ordem dos fatores faz toda a diferença.

A consciência do lucro não significa o mesmo que o lucro da consciência.

Caso a organização, e sua liderança, percam-se ou aprisionem-se nos labirintos da consciência do lucro, seus esforços retroalimentarão a engrenagem que direciona a sua obtenção como sendo esse o objetivo central. Não importa se a maturidade de suas operações já garanta sua sobrevivência e permita seu crescimento. A reiteração da consciência do lucro leva a busca e a obtenção de mais lucro como fim, não como meio. E aí já não importam os caminhos escolhidos, já não fazem diferença os impactos dessa busca desenfreada, tampouco importa a consideração para além do seu mero acúmulo.

 

A consciência do lucro gera uma gana desenfreada que leva a cegueira, que ignora alternativas e que não reflete sobre si, pois passa confundir o meio com o fim, desenvolvendo e maturando toda uma estrutura como forma respaldar esta distorção que ela própria cria.

 

É essa visão restritiva quanto a função do negócio que limita o impacto da organização e nos leva a uma associação negativa quanto ao poder transformador das organizações enquanto catalizadoras de nossa evolução. A versão nefasta do capital então se instala fazendo com que a boa intenção de sua existência se torne um mero reflexo egóico, pernicioso e ganancioso.

 

Poucas organizações lembram-se que o início de sua jornada não se deu para que o lucro existisse, mas ocorreu como meio de prestar um bem ao próximo, de eliminar ou minimizar uma dor, de servir e ser útil a sociedade.

 

A consciência do lucro come, digere e defeca o propósito como se dele já não mais precisasse quando é justamente o contrário. É o propósito que permite a maturação e a inversão dos fatores e que faz com que a consciência do lucro se transforme no lucro da consciência.

O Facebook não surgiu para tornar Zuckberg bilionário, mas para permitir a socialização de universitários através de uma rede social eletrônica. A UBER não surgiu para espalhar seus tentáculos pelo mundo e se tornar a maior detentora dos hábitos logísticos de muita gente, mas como forma de minimizar o impacto ambiental e democratizar o acesso ao transporte. A Tesla não existe para que Elon Musk seja um dos homens dos mais ricos do planeta, mas para demonstrar que é possível revolucionar a viagem espacial e o repensar quanto ao transporte alimentado pelo petróleo. A Alibaba não surgiu para dar bilhões a Jack Ha, mas como resposta a sua necessidade de demonstrar que um império pode ser construído dando voz a excluídos.

 

Mesmo por trás da organização mais ególatra reside um propósito moral e humanitário oculto. Todas elas surgiram com o objetivo de servir, aliviar uma dor ou minimizar um problema de um grupo, da sociedade ou de um nicho. Embora tenham se tornado gigantes prezas na consciência do lucro, poucas usam seu poder conquistado para o inverso: exercer o lucro da consciência.

 

É compreensível. A consciência do lucro é uma sombra que sempre acompanha as organizações não importa onde atuem nem o estágio em que se encontrem. Enquanto o capital for a variável de mensura de sucesso mercadológico e enquanto pautar a dinâmica econômica mundial, essa consciência fará parte da rotina de qualquer líder. É isso que o capitalismo faz, dá foco ao capital, mesmo que se fundamente no propósito para que o alcance.

 

Essa batalha não demonstra ter fim a curto prazo mesmo que haja uma crescente mudança do cenário a longo prazo. Bem longo por sinal, pois o capitalismo ainda é o sistema econômico mais eficiente que conhecemos e para o qual ainda não há substituto viável. Assim sendo, a sombra perniciosa da consciência do lucro será uma companheira constante para qualquer organização.

 

Em nossa sociedade, o propósito de servir e contribuir, mesmo que balize o surgimento de qualquer organização e oriente a obtenção do capital, não é considerado variável de mensura e sucesso. É uma contradição estúpida, burra e tosca, mas é a vigente e a que orienta a economia.

Nessa pegada, o lucro da consciência passa a ser rechaçado como idealismo, como um conceito utópico, de pouco ou nenhum sentido prático para aqueles ainda presos na consciência do lucro.

 

Para nossa sorte, do planeta e das gerações futuras, o cenário está mudando. Há um crescente chamado para que as organizações relembrem de suas bases e façam delas sua variável de sucesso. É nesse sentido que a consciência do lucro precisa dar lugar ao lucro da consciência, levando um número maior de organizações e líderes que não se deixam prender pelo ciclo egóico que reforça o acúmulo pelo acúmulo, que fomenta o status e o poder por premissa.

 

O lucro da consciência permite que a haja uma evolução, uma mudança de patamar de maturidade que compreende a necessidade do capital, mas não o torna fator único ou central de mensura.

 

Diversas são as iniciativas que demonstram que essa inversão de objeto é possível e viável. Dentre elas, o Conscious Capitalism Institute, a Conscious Business Journey, a Conscious Business Enterprise, a B Corp e a Gaia Education, para citar apenas algumas. Ou organizações como a mapeadas por Laloux em sua obra.

 

São iniciativas que demonstram tanto ser possível uma pivotagem nos negócios, como uma evolução na na essência do sistema econômico atual. Através delas é possível compreender que a consciência do lucro tanto dá lugar ao lucro da consciência quanto possibilita um reencontro com o propósito que levou ao surgimento do negócio, seja ele qual for.

 

O lucro da consciência portanto gera muita mais riqueza que a consciência do lucro, pois faz com que a gestão compreenda que o crescimento não precisa ser associado e preso a nocividade da gana egóica. O lucro da consciência permite alcançar lucro pelo valor agregado e pelos benefícios gerados a sociedade e ao meio ambiente a que servem e do qual dependem.

 

Portanto, não culpemos a consciência do lucro, ela é necessária, mas deve ser repensada para que o lucro da consciência seja o caminho mais assertivo para a construção de um futuro menos diacrônico e distópico, em prol de um muito mais equilibrado, centrado e justo. Tão pouco culpemos o sistema pelo que ele é, pois ele é somente um reflexo de nossas ações, de nossos valores e escolhas.  No entanto tenha absoluta certeza, será a autocrítica quanto a nossas ações que permitirão sua necessária evolução.

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