Imagine que você é uma aranha. Um belo dia, um vento forte a joga para longe, bem longe de seu habitat. Instintivamente você procura um lugar seguro e trata de arrumar um local legal para construir sua teia.

 

De imediato você se empolga. Nuvens de insetos pairam no ar e bons locais para armar sua rede estão à disposição. Só que o tempo vai passando e nada. Nenhum mísero insetinho fica preso em sua teia. Você então percebe que formato o padrão não serve para prender os minúsculos insetos daquela nova região.

 

Faminta e desesperada, você precisa de um formato diferente de teia para se alimentar. O novo cenário demanda uma nova ordenação.

 

Existem duas possibilidades. Esse novo formato pode ser definido por tentativa e erro. Se assim for, será um trabalho gigantesco até que o processo de criação acerte o alvo, o que demandaria muito tempo e esforço, coisa que você não dispõe. Se por outro lado, você tentar copiar o formato de uma outra espécie da região, a teia não será adequada a sua realidade (capacidades e habilidades desenvolvidas). Então, passado algum tempo e sem conseguir reconfigurar sua teia, você morre de fome, mesmo com tanta oportunidade ao redor. 

 

A mesma coisa que acontece a aranha acontece conosco quando precisamos nos reinventar ou criar. Ah, antes de você retrucar que não é uma aranha para tecer teias, saiba que sem perceber se baseia na mesma premissa para se reinventar e criar. E que princípio seria esse? Simples, a complexidade. Mas, como assim ‘’simples, a complexidade’’?!

 

Uma aranha, ou qualquer outro ser vivo, incluindo nós, utiliza da dinâmica entre ordenação e caos quando precisa se reinventar e criar. Para entender isso é preciso ter em mente que a troca de informações ocorrida entre os seres vivos, e entre estes e o ambiente, é o que lhes dá base para a ocorrência de uma ação minimamente coordenada. E por informação não me refiro a zeros e uns, mas a toda gama de dados qualitativos e quantitativos que permitam um mínimo de computação. Nesse sentido, até uma ameba computa e troca informação.

 

Essa troca ocorre através de acoplamentos, que nada mais são que a interação e a interdependência entre os elementos de um contexto. O conjunto destes acoplamentos caracteriza um padrão, uma ordenação em rede, ou seja, um padrão relacional.

Assim, quanto mais o ser se conscientiza quanto a esta rede, mais compreende a realidade a sua volta e mais capacidade de agir sobre ela apresenta. Mas, não somos aranhas, e muito menos amebas, então, qual a diferença? A diferença está na nossa capacidade de gerenciar estas relações, que alcança níveis de consciência muito além do mero instinto, sacou!

 

Mas, e onde entre o ato criativo? Simples! A criação é fruto de uma profunda compreensão sobre os processos que permitem e regulam esses acoplamentos. Então sim, dentro de suas limitações, a ameba, a aranha perdida, ou nós diante de um desafio, somos totalmente capazes de computar informações e achar soluções para os imbróglios da vida. E o motivo é um só, possuímos a capacidade de compreender o padrão de ordenação que caracteriza a realidade. Contudo, se vamos conseguir vencer os desafios e avançar, a história é outra pois um novo contexto demanda o entendimento e a adaptação a novos padrões, a novas relações.

 

Estamos a todo momento lidando com a ordenação e o caos e criando a partir da compreensão desta dinâmica. Parece confuso, mas não é.

Enquanto a ordenação age contra o processo de criação, o caos nos empurra em sua direção. Porém, isso só ocorre até certo ponto. E é fácil entender por quê. Se não há ordenação o caos impera, e diante do puro caos nada prospera. O oposto também ocorre. Se impera a ordenação, nada se cria. Portanto, criar só é sinônimo de inovar se, e somente se, além de romper com a ordenação estabelecida apresenta um resultado positivo para as relações em jogo.

Se a aranha passasse a tecer uma teia triangular, ao invés da usual teia octogonal, mas que ainda deixasse os insetos passarem entre suas hastes não podemos falar em inovação, embora tenha havido uma criação. Ficou claro?

 

Muita gente ainda confunde isso, pois entende que o fruto da inovação precisa ser algo nunca visto, pensado ou projetado. Ledo engano, meu caro Watson! A inovação é reflexo da dinâmica entre caos e ordenação e fruto de como os acoplamentos se reconfiguram e se beneficiam do que foi criado. Ou seja, a inovação ocorre quando uma ideia pré concebida se reinventa e gera valor em rede.

 

É preciso ter em mente que a realidade é caracterizada pela rede de relações e interações que mantemos com o meio e com outros seres em uma escala global e multinível. Grosso modo, é isso que significa a complexidade. Além disso, é preciso considerar que dificilmente teremos absoluta certeza sobre algo, pois não temos a capacidade de compreender essa extensa rede relacional nem  de dar prova de todas as suas implicações. Portanto, na complexidade a incerteza é uma variável mestre.

 

Quando observado esta lógica no contexto organizacional entendemos melhor os desafios que produtos e serviços inovadores enfrentam. Entendemos melhor por que ideias incríveis não sobrevivem para além de seus projetos, por que 50% das startups morrem em menos de 5 anos, empresas gigantes como a Kodak falem, investidores sempre querem garantias e por que muitas organizações preferem o segundo lugar no pódio. Pura e simples minimização de riscos.

 

Então, quanto mais conhecemos e exploramos esta rede, menor o risco e mais hábeis em identificar gaps a explorar, bem como mais sensíveis quanto ao impacto que uma ideia fora do padrão venha a causar nessa rede complexa multinível. A consequência? Uma maior capacidade de inovar e uma maior habilidade de lidar com o desconhecido.

 

Adam Grant, autor de How Non-conformists Move the World decorre em toda sua obra sobre os diversos fatores relevantes a criação. Já Madsbjerg, na obra Sensemaking, explora o poder da subjetividade, da filosofia e da cultura neste ato. Ambos, em associação a estudos sobre a complexidade de Edgar Morin, sobre sistemas de Ackoff e Senge, e da neurobiologia de Zak e MacGonigal, são categóricos: a criação ocorre pela imersão profunda na realidade, não por mera vontade ou mergulho raso em concepções superficiais.

 

Coco Chanel por exemplo, morou anos fora de seu país para conseguir incorporar aspectos de outra cultura em suas criações. Se ela tivesse tentado inovar a partir de sua própria cultura, sem internalizar aspectos de uma outra, essa jornada teria sido bem mais complicada, tudo porque ela estaria “limitada” pela sua visão restrita de mundo. Morar fora de seu país expandiu sua visão quanto a realidade e com insights externos devidamente internalizados e um profundo conhecimento de sua própria cultura, ela conseguiu achar uma forma de romper padrões e se reinventar. Premissa que nossa aranha deslocada e organizações disruptivas precisam fazer para sobreviver.

 

Esqueça esse papo furado de que para ser criativo basta não estar impregnado com uma ideia pregressa e seguir um método qualquer para criar. É justamente o contrário, a criação é facilitada quando conhecemos a fundo a realidade e as ideias que queremos reinventar.

 

A complexidade entra então em jogo como um artilheiro decisivo em campo, pois refina nossa capacidade de compreender os acoplamentos relacionais que caracteriza a realidade, facilitando o ato criativo.

 

A complexidade nos faz enxergar o ato criativo como uma dinâmica de reconfiguração de relações onde nada se ‘’cria’’, mas tudo se transforma, em restrito alinhamento a dinâmica evolutiva da vida. É aí onde reside sua maior beleza e seu maior desafio, já que para inovar é preciso refletir e questionar, não seguir um método enlatado qualquer.

 

Dito posto, voltemos a você aranha. Caso explore a fundo a geometria que lhe permite criar sua rede octogonal vai achar gaps em sua estrutura que podem ser exploradas, e ao avaliar as teias das aranhas locais vai perceber o que as torna eficaz naquele contexto. É justamente neste conflito profundo entre a ordenação pré-estabelecida em sua mente e as soluções de seus pares que você aranha vai descobrir como se reinventar em meio ao caos em que se encontra.

 

Mas você não é uma simples aranha. Sua humanidade exige muito mais que simples comparação e adaptação. Nesse sentido, a complexidade insere no contexto variáveis como cultura, valores, propósito, códigos morais e a individualidade da consciência humana como forma de enriquecer o entendimento sobre o que é considerado padrão.

 

Seja nos auxiliando a criar conexões, seja nos orientando a melhorar a interação das já existentes, a complexidade nos faz enxergar a realidade como algo sempre em mutação. Portanto, quanto mais exercitarmos a habilidade do pensar complexo mais nos tornamos capazes e hábeis em reinventar e criar. O que implica em reconfigurar a rede relacional desenvolvida a partir das informações trocadas.

 

O profissional e a organização que compreende essa dinâmica entre ordenação e caos e explora a complexidade de suas relações é a que mais identifica gaps onde possa inovar. O resultado vai muito além da simples quebra de padrão, já que agrega de valor em rede.

 

Basta ver como a UBER revolucionou o transporte urbano, como o AirBnB repensou a estadia, a Netflix deu um upgrade no streaming, o Linux se tornou o sistema operacional mais utilizado no mundo e as cripto moedas estão detonando a forma usual de transacionar moeda.

 

O poder máximo da complexidade é justamente este: a reinvenção de nossas relações. Um poder presente em toda a forma de vida e acessível a todos, não importa o contexto, não importa a característica.

 

Quem sabe se você aranha tivesse uma maior consciência quanto a sua instintiva capacidade de complexificar não morresse de fome diante de tantas oportunidades, não é?!

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